GAF

Os desafios do Agronegócio Brasileiro

O engenheiro agrônomo Mauro de Barros Tarozzo, de 44 anos, faz parte da quarta geração de produtores rurais da família Tarozzo. Nos anos 1980, via o pai trabalhar na propriedade localizada em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde produziam cerca de 35 sacos de soja. Passados mais de 30 anos, o agricultor paulista continua dedicado à cultura de grãos de soja, mas com uma diferença significativa: num cenário mais competitivo do agronegócio, a sua colheita de grãos representa o dobro em relação a décadas atrás, hoje em até 70 sacos. O reflorestamento de eucalipto também passou a ser uma atividade. As árvores, que chegavam a no máximo 20 metros estéreo por hectare (cálculo de volume de madeira), agora alcançam 55 metros, um avanço de 150%.

Conceitos de gerenciamento e planejamento de negócios capazes de influenciar na produção eram temas distantes das realidades do bisavô, avô e pai de Mauro. O agricultor se viu obrigado a fazer diferente. Então, começou por se especializar em agronomia e MBA em administração e gestão de empresas para levar o conceito das universidades para a prática no campo. O objetivo era claro: perpetuar os negócios da família. “A importância de uma gestão profissionalizada é muito grande diante do cenário cada vez mais competitivo do agronegócio. O mercado está em constante mudança e, a cada dia, surgem novas tecnologias voltadas ao agro e novas técnicas de cultivo que só são aprofundadas por aqueles que se mantêm atualizados”, avalia Mauro Tarozzo.

Apenas nos últimos 20 anos, as famílias produtoras rurais no Brasil conseguiram entender que o negócio precisa de uma estrutura administrativa. Gestão e planejamento, além de outros importantes temas ligados ao agronegócio, serão debatidos no Global Agribusiness Forum 2016 (GAF), que será realizado nos dias 4 e 5 de julho, em São Paulo.  Segundo a avaliação do especialista em gestão em empresas de agronegócio Francisco Vila, diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Boa parte dessa iniciativa, diz Vila, deve-se ao uso da tecnologia no campo, com significativos resultados em aumento de produtividade e redução de custos: “Temos que satisfazer o consumidor com qualidade, sanidade, regularidade e preço. Faremos isso com a utilização de tecnologias na cadeia", avalia o diretor da SRB.

Em sua fazenda em Barra do Garças, Mato Grosso, Mauro Tarozzo utiliza colheitadeiras equipadas com sistema GPS e piloto automático, que praticamente dispensam o operador.  A administração é feita por meio de bancos de dados armazenados em computadores. A propriedade também possui câmeras que facilitam o monitoramento de todas as atividades.

Para o produtor, eficiência na gestão representa muito mais do que ganhos de produtividade. “Desenvolver uma estrutura administrativa sólida demonstra credibilidade, necessária para mostrar ao mercado transparência e boas práticas de governança”, diz Tarozzo. “Nesse processo, tornam-se mais viáveis a busca por financiamentos a custos mais competitivos, as negociações com fornecedores na compra de insumos e equipamentos e o relacionamento com os clientes”, completa. Além disso, destaca, são requisitos fundamentais seguir à risca normas ambientais e trabalhistas, além de todo o cuidado sistemático com temas sanitários, o uso de defensivos agrícolas e descarte de embalagens. 

Apesar dos benefícios, a aplicação da tecnologia no campo ainda é baixa no Brasil. Segundo estimativas da Sociedade Rural Brasileira e dados oficiais do governo, aproximadamente 15% das empresas familiares donas de propriedades rurais no Brasil aplicam a tecnologia em suas atividades. Esse número sobe para 18% na agricultura empresarial - o que mostra o potencial do Brasil em avançar drasticamente se comparados a outros países que disputam o mercado. Estima-se que nos Estados Unidos e em países da Europa, a aplicação da tecnologia chega a 50% em algumas atividades.

Origem familiar

O agronegócio brasileiro, responsável por mais de 23% do PIB nacional, é hoje comandando por uma legião de famílias empresárias. Atualmente, estima-se, cerca de 70% da produção nacional de alimentos está sob a gestão familiar ligada ao campo, e não executivos contratados. Nesse sentido, a sucessão nos negócios é, sem dúvida, um dos grandes desafios. Segundo Francisco Vila, há uma certa resistência dos jovens em assumir as empresas das famílias no campo, por não verem no trabalho rural uma atividade muito sofisticada.

Ele explica que a preferência pela vida urbana está associada a uma ideia, antiga, de que o campo representa lugares isolados, sem opções de lazer e que estão longe de qualquer atividade social. Além disso, alguns filhos de produtores rurais crescem com a ideia de que o trabalho no campo é árduo, sem grandes recompensas. “Dessa forma, o jovem, que mais tarde foi para a capital estudar, conheceu a vida urbana com suas atratividades, desiste de continuar a vida dos pais”, diz.

Nesse contexto, é importante ressaltar, diz Vila, que aqueles que optam por seguir nas atividades do campo devem fazê-lo por aptidão e por acreditar no negócio, separando as questões familiares do dia a dia da empresa. “Cargos que exigem especialização só devem ser ocupados por profissionais capacitados, e não por questões de sangue”, diz Vila. “O nepotismo deve ser evitado a qualquer custo. A questão financeira também não pode ser confundida. A família tem seu dinheiro e a empresa, seu capital, por isso, os dois não podem se misturar”, afirma.

Desafios

Um dos maiores entraves enfrentados hoje em dia pelas empresas rurais é a legislação brasileira. Segundo Gustavo Diniz Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira, as regras em vigor inviabilizam, por exemplo, contratos trabalhistas por produtividade. “A falta de regulamentação para atividades terceirizadas é um dos principais fatores que favorecem a informalidade e geram insegurança jurídica aos produtores”, diz Junqueira.  

O presidente da SRB ainda aponta como um importante desafio do setor o planejamento do produtor brasileiro em direção à conquista de espaço no mercado externo. Apesar da liderança do Brasil no agronegócio mundial, avalia, o empresário brasileiro precisa tocar os negócios além das preocupações agronômicas e zootécnicas, concentradas em questões específicas sobre plantio, colheita, criação ou abate. “Além da incorporação tecnológica, devemos distinguir as práticas de gestão do negócio, de olho na eficiência produtiva, financeira e comercial, ancorados em análise de investimento, retorno e risco”, diz Junqueira. “Estamos diante de mercados modernos e negócios globais, precisamos de mais profissionalismo e inovação”.

Pela avaliação de Junqueira, será cada vez mais competitivo o produtor que elaborar um ecossistema de negócios fundamentado em interesses mútuos com fornecedores, clientes, investidores, sobretudo, alinhado a uma agricultura sustentável.  Nesse sentido, o Código Florestal, aprovado em 2012, é uma fiança que atesta que os alimentos produzidos no Brasil atendem de forma consistente a proteção de recursos naturais. O Código Florestal determina, entre outras regras, que cada propriedade rural no Brasil estipule entre 20% e 80% de sua área como reserva legal. “O desafio é fazer com que o mundo reconheça essa legislação como a maior certificação mundial”, afirma o dirigente da SRB.

Dos 850 milhões de hectares de área total do território brasileira, 62% são compostos por matas nativas e áreas preservadas, mais que o dobro em comparação à Europa e países como Estados Unidos e China. “As pessoas precisam conhecer como passamos, em um curto espaço de tempo, de importadores crônicos a exportadores líderes de produtos como soja, carne, laranja, açúcar e café”, apontou o dirigente, reforçando a necessidade do governo brasileiro vender melhor sua imagem ao mundo.